quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

home sweet home


Ontem fizeste a pergunta mais infantil. Eu sempre gostaria de a ter feito a muitas pessoas; por vergonha ou outra razão qualquer (que não interessa agora), não fiz. Ficou-me sempre cravada na alma, como se tivesse fosse um ponto de interrogação sem vogais nem consoantes. Talvez por isso hoje faça perguntas demais e a mais. Acho que regredi e voltei à “idade dos porquês”. Sim, deve ser isso.
Ontem fizeste a pergunta mais infantil:
Quem é o teu melhor amigo? Ou será que devia dizer, melhor amiga?
Respondi. Não te ia deixar plantado como as flores que tens no jardim que já morrem de sede. Todas as crianças merecem uma resposta, por muito grotesca que seja.
A minha melhor amiga é a minha casa.
E o que seria de uma pergunta sem uma pergunta adicional? Devolvi-te, portanto, uma pergunta: também tens uma melhor amiga?
Como não sou nenhuma criança que faz questões infantis, achas-te que não merecia resposta. Achaste bem.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

a tua cabeça é uma ervilha.


Ainda me lembro da última vez que te abracei: depositei naquele abraço toda a minha força, toda a minha saudade de ainda te ter por perto. E a tua cabeça nas minhas mãos era uma ervilha com cabelos fraseados de meias palavras que eu ia acariciando com os meus lábios rugosos.
Não me custa falar disto; o que custa é lembrar. E lembro quando falo para dentro e faz eco; a minha voz grossa não deixa de lado os teus olhos que quando me olhavam pareciam a máquina fotográfica que me ofereceram e que perdi. Fotografavam todas as demais pequenas imagens e falavam-me delas sem me cuspir. Hoje julgo que continuas a fazê-lo; acontece que hoje, sou adversa para ti. E tu já não és só um: já és mil na minha cabeça e metade de um só na minha alma (se é que a tenho de verdade).

Um dia, ofereces-me uma máquina fotográfica a cores?

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

herói, às vezes.


Se há alguns meses atrás te disse que quando fosse grande queria ser como tu, hoje já não funcionas como um ídolo para mim. Recordo-me da tua resposta, como se me tocassem nas mãos as tuas agrestes palavras. Respondeste-me: “quando for grande quero ser como eu”. Na altura, achei que não tinhas percebido o que eu te tinha dito e, por isso, não me devolveste a resposta que os meus ouvidos gritavam por ouvir. Porém, hoje, aqui deitada neste mesmo manto de azul do teu céu, percebo que isso não eram mais do que estórias com sabor a areia que eu tentava traçar aos meus olhos.
A minha intermitente inconstância levou-me a mudar o que julgava poder existir: heróis. Já não és o meu. Talvez nunca tenhas subido ao pódio mesmo, até porque nunca me salvaste. Afinal, os heróis só existem nos livros que nos contam estórias bonitas para adormecer.
Sabes, eu acho que tu cresceste demais e já não sabes de ti. Eu, pelo contrário, limitei-me a olhar para ti, sentada de cocas, à espera de ser como tu. Hoje não cresci, mais uma vez. Hoje continuo a mesma sardinha enlatada muito ensopada de mim e sabes, quando for grande quero ser pássaro, porque feliz já o sou aqui, de cocas.


E tu, és feliz?

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Chuva de Outono.


Hoje, choves em mim. Tal como esta chuva que me torna um pano mergulhado na água, também tu choves em mim. Cheiras a terra fresca, a terra molhada como tanto te tinha pedido. E já são vagos os dias em que eras solarengo e fazias dos teus braços, duas pinças que abriam e cerravam os seus dentes, como que a prender-me no calor do teu suor rasgado na tua pele. Já são vagas as horas em que te entras como um hóspede em casas de madeira em tom de solstício de verão; em pés de lã, entravas. Eu sabia que estavas ali, sempre, embora fingisse que nem te via entrar. Fingia ser cega, não ter olhos para ti, nem boca, nem cheiro, nem nada.

E agora que me lês, com olhos de oceano, de mar e quebras, com as mãos, os rios de sal que te lavam o corpo, pensas que falo do sol. Digo-te que não, uma vez mais. Eu falo de ti e não de sóis.


Um dia, juro que sou eu que chovo em ti, na tua pele, no teu umbigo.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009


Parecia que estávamos em águas de bacalhau há anos a tentar conseguir o que, para nós, seria a selecção natural; a nossa água, o nosso mar estava já tão concentrado em chuvas salgadas que nós já permanecíamos imutáveis: sempre o mesmo sabor que tanto me arde nos golpes que trago nos lábios, sempre o mesmo cheiro a terra molhada. Se eu te desse uma trinca, tu serias dose letal e eu um parasita do teu lugar, da tua alma.
Percebi (finalmente) hoje que a tua saudade é como o queijo e os iogurtes lá do meu frigorifico: têm curto prazo de validade. E eu que a julgava algo de tão pouco inóspito, afinal já passou de validade, ou talvez nunca tenha habitado na tua casa de palha. Porque, na verdade, já faço parte das tuas meias frases.

Um dia, vamos cheirar a céu.