quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Chuva de Outono.


Hoje, choves em mim. Tal como esta chuva que me torna um pano mergulhado na água, também tu choves em mim. Cheiras a terra fresca, a terra molhada como tanto te tinha pedido. E já são vagos os dias em que eras solarengo e fazias dos teus braços, duas pinças que abriam e cerravam os seus dentes, como que a prender-me no calor do teu suor rasgado na tua pele. Já são vagas as horas em que te entras como um hóspede em casas de madeira em tom de solstício de verão; em pés de lã, entravas. Eu sabia que estavas ali, sempre, embora fingisse que nem te via entrar. Fingia ser cega, não ter olhos para ti, nem boca, nem cheiro, nem nada.

E agora que me lês, com olhos de oceano, de mar e quebras, com as mãos, os rios de sal que te lavam o corpo, pensas que falo do sol. Digo-te que não, uma vez mais. Eu falo de ti e não de sóis.


Um dia, juro que sou eu que chovo em ti, na tua pele, no teu umbigo.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009


Parecia que estávamos em águas de bacalhau há anos a tentar conseguir o que, para nós, seria a selecção natural; a nossa água, o nosso mar estava já tão concentrado em chuvas salgadas que nós já permanecíamos imutáveis: sempre o mesmo sabor que tanto me arde nos golpes que trago nos lábios, sempre o mesmo cheiro a terra molhada. Se eu te desse uma trinca, tu serias dose letal e eu um parasita do teu lugar, da tua alma.
Percebi (finalmente) hoje que a tua saudade é como o queijo e os iogurtes lá do meu frigorifico: têm curto prazo de validade. E eu que a julgava algo de tão pouco inóspito, afinal já passou de validade, ou talvez nunca tenha habitado na tua casa de palha. Porque, na verdade, já faço parte das tuas meias frases.

Um dia, vamos cheirar a céu.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009


Já sabia que era uma peúga cheia de buracos e que era o teu entretém nos dias do sofá. A minha cara fazia parte do teu segundo plano da parede. Afixavas-me lá no alto com cuspo e cola adesiva, junto ao quadro da tua tia-avó que nunca chegaste a conhecer.
A única coisa tua que tocava em mim eram os teus olhos; ora cor da chuva, ora tons de mel, eles tocavam em mim em curtas investidas, e eu, encavacada, nem sabia o que fazer nem como estar (se bem que não tinha grandes alternativas se não estar esburacada e tesa que nem uma pedra sem coração).
Mas isso, era dantes. Hoje estou em saldos. Não me perguntes porquê; eu também não sei, mas sei que estou.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

eco.


Fazes eco em mim. A tua voz, os teus verbos monossilábicos, o teu (des)amor. Tudo faz eco. Acho que para ti consigo ser oca, não precisas pedir muito.

Hoje não há músicas que falem por mim.

domingo, 13 de Setembro de 2009

efémera



e tu, já imaginaste como seria?