domingo, 4 de outubro de 2015

Welcome white bird.

Voltaste Matilde?

Menos clarividente, mais crescida, menos passarinho voador. Crescer faz destas coisas: torna-nos sensaboronas, sem gosto, sem graça, insalubres, ou, pelo menos, tira um pouco o gosto do nosso olhar aéreo do mundo. Traz-nos e torna-nos mais terrestres.
Traz(-nos). Para onde? Não sei e sei-o bem. Traz-nos para lugares que o dia-a-dia não deixa perceber que lugares são. Lugares na terra que são pouco ocult
os, (bem ou mal) frequentados. Frequentam-nos pessoas como tu, como os adultos, como os velhos. Frequentam-nos pessoas sem tempo para a vida e ainda como menos vida para o tempo, pessoas fartas e cansadas, pessoas cansadas e fartas, pessoas que nem sabem usar metáforas, eufemismos e outras figuras de estilo que tanto de riqueza têm e tanto de pobreza lhes é atribuída. Sempre gostei de metáforas. Continuam a ser a minha figura de estilo favorita, o que não significa que continue a usá-la.
Uso-a hoje de novo para te evocar (e para te invocar), ó Matilde. 

Voltaste. Voando, marchando, caminhando, rastejando. A que preço chegaste a mim hoje? Prefiro nem saber. Como sempre, chegaste de todas as maneiras menos num cavalo branco (e note-se que a manhã de hoje também não era de nevoeiro; pelo contrário, de nuvens semeadas por esse céu cinza escuro, uma verdadeira manhã de outono, quente, ventosa e que pedia e dava chuva aos olhos de quem o contempla).
Tanto tempo passou. Bem sei, sempre andaste por aqui. Estúpida fui eu que pouca atenção te dei. Desculpa-me doce Matilde. Que idade tens tu? Olho para ti: vestida de branco, lábios pintados de vermelho, prontos para dar um beijo na testa a quem o queira receber. Metade de ti diz-me que estás com uns setenta e sete anos. A outra metade revela os teus vinte e três anos. Que idade tens tu? 
Será que te posso pedir um abraço? Será que tu mo vais dar? Será que guardas em ti a mesma força frágil (in)capaz de soprar um dente de leão? Se sim, bem sei que serás capaz de me abraçar forte neste dia em que te dou a atenção que mereces, que precisas. 
Matilde, clara. Hoje eu também sou clara para ti. Podes vir, aproxima-te. Vem. Vem.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

crescer.



Olha quem chegou. Foste tu e não eu.
Sempre o mesmo a falar a palavras meias e, como se isso não bastasse, até sem abrir a boca tu dizias coisas que eu nunca consegui compreender (acho eu).
Fazias-me perguntas que eu achava que não eram apenas feitas por mera cusquice; tenho a certeza que tinham um sentido. E que crescido estava o teu sentido; mesmo se nunca te conheci como já foste, eu sabia que estavas crescido.
E pergunto-me se ser crescido é um estado depreciativo da condição humana. E há coisas que me respondem aos olhos que “Sim”, que crescer é ser um refém do corpo, da velhice, da monotonia, dos dias iguais a outros dias. Outros que me fecham os olhos e me escrevem a resposta nas mãos: crescer é descobrir todos os dias coisas novas, em qualquer idade.
As mãos não mentem; mas o que é certo é que eu cresci mais dez centímetros desde a ultima vez que me medi e continuo a mesma desde então: a mesma clave de sol muda, a mesma com os olhos pesados, a mesma a sangrar (ainda mais) das narinas em dias aleatórios. A mesma. Mas mais vazia, mais sem ar, mais sem brilho, com ainda menos palavras, mais presa ao seu próprio corpo, sem ar, sem vida, sem nada.
E lá está, crescer é ficar com os pés presos ao chão: é difícil voar mesmo tendo asas.
E tu, como cresceste?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ao meu Pássaro Azul,




"Há cem milhões de estrelas só na nossa galáxia. E em todas elas o teu olhar existe."
E tu fazes-me falta. Faz-me falta tocar neste mesmo teu olhar com a minha iris em tons de teia de aranha. Mas ainda assim te revejo em cada estrela, mesmo se já não olho para elas há tanto tempo e se tantas são as vezes que não me sinto aquecida por elas. Ainda ontem me sentia tão afogada no frio da noite e tu fizeste-me falta como tudo, como todas as luas que existem (mesmo se só existe uma e uma só). Mas as estrelas estavam lá. E tu onde estavas?
Continuas a ser o mesmo pássaro azul. (?) Pergunto-me e respondo-me, em simultâneo, porque no meu coração hás-de sempre ser esse voador que traz no bico sementes de amor infinito.
E neste dia, gostava de te ter a voar no meu céu, de olhar pousado nas estrelas. Eu estou cá em baixo. Também a voar, não tão alto, mas a voar sobre os mares. A viajar. Porque se tu és um pássaro, eu também o sou.
Parabéns por voares tão bem. Infinito céu azul.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Os dias passam e voam. E eu às vezes não tenho asas para os acompanhar nesse voo. Mas a Matilde voa; por isso, não tem ela vindo ao teu encontro. 
Aqui, neste mesmo banco de ervas daninhas que piso enquanto molho os pés neste cair da manhã de Inverno, vejo-te eu por entre os ramos cobertos da neve que gostava de tocar contigo. Em vez disso, e fora da sua época sazonal, flutuam flores de Primavera ansiosas por me verem. Não as queres também visitar?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

a nossa casa (?)



Noite branca. Não há neve; bem pelo contrário: estou cheia de calor. Cheia de me rebolar e de me enrolar em pensamentos gordos e feios.
Entrei na casa, recebida por duas caras quando o que queria na realidade era que a porta se abrisse sozinha e me convidasse a entrar e a dirigir-me ao quarto. Apesar de todos os pesares e de não ter sido isto o sucedido, dirigi-me na mesma ao quarto. Cama por fazer. Fi-la de fresco com lençóis que cheiravam a mim (e como me custaria se outrem os usasse; e como me custaria usar outros se não estes, os meus, os que cheiram ao meu perfume sem grande definição).
A vontade era de deixar entrar pela casa o eco das novas bandas sonoras que ouvi ontem pela manhã, as que alguém de tamanha importância me deu a conhecer. Mas não posso. E tudo me dói quando vejo tudo o que é meu ocupado por outro, tudo dividido, tudo partido em meia-lua, em quartos ou em oitavos. Agora tenho um “eu” elevado a oito a gritar-me por dentro, a reclamar por espaço, por amor, por privacidade. Fiquei mais concentrada, uma versão mais rasca do sunquik.
Pergunto-me como, numa coisa tão pequena, há espaço para tanto egoísmo, tanta futilidade.

A Matilde volta, cheia de olheiras, cheia de si, cheia de sono, farrapo, velha. Mesmo assim, deseja-la? Desejas lê-la?

sábado, 28 de julho de 2012

Ainda ontem visitei a linha que separa o céu do mar. Percebi que mar e céu têm a capacidade de se engolirem mutuamente e, em simultâneo, viverem em simbiose. Como eu e tu. Também vivemos uma simbiose; também eu fico sucumbida pela tua doce voz, pelo anjo que vive em ti ou por ti. E gostava de saber tanta coisa a teu respeito; gostava de saber como é o céu, ou pelo menos, como é o teu. Não o imagino; também nunca fiz um esforço. Mas agora que penso nisso imagino que o teu céu seja uma nuvem branca que flutua, que fala, que ouve, que me sorri em dias mentirosos de chuva e que tem vontade de ter o sol como pano de fundo. Imagino-o e imagino-te em cima dessa mesma nuvem a olhar por mim.
Mas já que ontem descobri que céu e mar acabam no horizonte do meu olhar, deixa-me também descobrir-te. E vem tu também descobrir-me e guarda-me como se fosse uma praia abandonada à espera de ser encontrada pela tua infinidade de pinturas de fresco.
Sabes, eu acho que descobri que os anjos existem mesmo nessa linha, onde o mar e ceu se tocam e se apaixonam. E tu já descobriste isto?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em dias de Primavera as borboletas voam. E nas outras estações?

Toco-te nos olhos com os meus. Rimo-nos para o lado, como duas crianças envergonhadas.
Já te disse que me deixas com borboletas na barriga? Não, claro que não. Há muita coisa que não te disse. Melhor: eu ainda não te disse nada. Falamos ainda em demasia com os olhos; para ser sincera, é a parte mais bonita do amor. Tudo o resto não faz parte do meu dicionário ambulante de significados e frases feitas.
Olhar para ti é ver-te como esta incógnita elevada à sétima e dá-me vomtade de olhar ainda mais e sempre mais. Mas sempre com este medo de que percebas que o estou a fazer.
Somos uma equação impossível, sei bem. Mas deixa-me sonhar um pouco e perder-me em ti, naquilo que talvez sonhes. Em que pensas? Conta-me... conta-te. Conta-te pelos dedos das mãos. Conta-me os teus segredos (mas não os maiores). Fala-me das tuas borboletas; gostava que fossem as mesmas que as minhas. As tuas voam? As minhas às vezes perdem essa capacidade e colam-se ao chão. Achas que podias dar-lhes asas infinitas?
Definitivamente todos podemos conhecer o amor; é por isso que ele é tão complicado.

sábado, 12 de maio de 2012

E como me sinto bem dentro das meias que me ofereceste pelo Natal de há dois anos atrás. É engraçado como continuo a sentir-me leve sempre que as uso a primeira vez depois da lavagem. Como se não tivesse dois pés (com um perfume em dias de calor que só Deus sabe!!!) que me permitissem andar e então eu voo apenas.
Já não voo mais no teu céu e agora fico-me pela tua metade; uma metade em mim que de ti já não faz parte. Mas nós ficámos; E orgulho-me das nossas novas (ou não) asas. Não te guardo rancor; longe! Em vez disso, choro a pensar na inocência daquilo que esperava (e ainda espero, sentada no mesmo banco) que fôssemos. E aquilo que esperava não era mais do que correr à chuva contigo, com ou sem as mesmas meias que me ofereceste, sem pés, sem pernas, sem chão; somente correr à chuva, ao sol, sem frio, com uma aragem (sem ventos muito tempestuosos que me despenteassem os meus antigos finos cabelos que, ainda bem, não são doirados mas que, por muita pena minha, também não são cor de cenoura), de mãos finas, de lábios grossos e molhados e rasgados e vermelhos e de olhos às teias de aranha (como só tu sabias ver).
Lembro-me da última vez que me pediste para não perder o meu mistério; não sei se ainda queres, mas eu continuo a ter em conta o teu pedido. Espero que tu também continues a saber decifrar-me.
E agora descalço as meias e fecho os olhos. Até já, no sonho.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Penso que nos tornámos duas pessoas (em vez de uma) demasiado sozinhas; ou fui só eu que me tornei demasiado “bicho-do-mato”? Desculpa se generalizo mas a minha tendência para não querer viver isto sozinha, grita e eu só falo baixinho.
É que hoje parece que estou a escrever só para não ficar calada. Na verdade, tenho tanta coisa para dizer; tenho sempre uma infinidade de coisas para contar mas o vento leva-as sempre e eu fico-me com ele pela metade. Nunca me completo e esse é um grande receio meu (para além de tantos outros): ficar sempre incompleta.
Vamos então falar de uma coisa qualquer; pode até nem ser nada. Vamos falar de doenças, de enjoos (que é o que estou: enjoada de mim; ou será isto uma daquelas vezes em que nos sentimos imundos por não tomarmos banhos quentes há já alguns dias).
Hipótese B.
Então hoje sou um bicho a precisar de colo (e não de um banho, ao contrario do que pensas), a precisar de fechar os olhos porque estão cansados. E então hoje estou também demasiado confusa; soubesses tu as coisas malucas que a minha cabeça tonta pensa. Conto: conto que hoje tenho saudade e que estou cansada (assim como os meus olhos) de andar (tipo barata tonta em sextas feiras selvagens) de um lado para o outro e nem chegar a lado nenhum.
Hoje não me leias; tenho linhas demasiado feias, demasiado longas e sem vínculo. Olha-me só, sem ler. E dá-me colo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

E a Lua não é mentirosa

Aqui estou eu e aí estás tu desse lado mas no mesmo lado de sempre, quem sabe no mesmo lado que o meu. E sabes que a Lua não é mentirosa? Se achas que cresce quando é um e que mingua quando é um Cê, bem podes parar de fazer mnemónicas e trocadilhos com letras e números. A Lua nunca me mentiu; se o fez, fê-lo tão bem que merece um bónus: que acredite nela. Assim o faço, então e digo-te que a Lua cresce todos os dias e é então um grande. Eu também sou um grande (curioso). E não, ao contrário daquilo que a bioquímica diz, a Lua não é um tumor só porque cresce descontroladamente, fruto do amor incondicional de meia dúzia de mutações que fizeram o amor no meio da rua.
Mutação sou eu e és tu a olhar para o sol atrás das nuvens à espera que se faça noite para vermos de novo a Lua, essa verdadeira amiga. Ai Lua, Lua! Como me tornas feliz quando olho para ti e como me tornas ainda mais feliz quando és tu a olhar para mim. Agora que penso, deixemo-nos de pensamentos egoístas: achas que também a faço feliz quando ela olha para mim?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Escreve-me. Escreve-me a todas as horas. Não desistas de mim e lê-me. Lê-me porque só tu o sabes fazer como nenhuma sombra, nem mesmo a minha (que anda perdida há uns bons anos), o sabe fazer.

Descobre os meus sonhos e tenta adivinhá-los como se os tivesses sonhado também e não deixes de gostar do meu mistério porque ele vai ser sempre uma boa parte de mim. Procura-o em todas as minhas linhas, em todas as minhas frases. Eu sempre fui de meias frases e sempre precisei de alguém que as completasse mesmo sem dizer nada.

Pareço-te muito livre, pensas tu. Eu sei. Pareço-te muito livro fechado em dias de chuva mas não; sou um livro aberto. Cheio de luas, cheio de fases e faces e lados errados. Não deixes de os tentar descobrir.

Lê-me. Sou um livro de páginas que cheiram a mofo mas que têm muito para te dizer.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Cansaço. Não esperes por ele, pelo cansaço que te cega a alma e os olhos e toda a tua pele, todo o teu cansaço que te faz ver a dobrar as letras.
Sim, eu esperei por ele, numa esquina e ele encontrou-me sem necessitar de grandes GPS’s e novas tecnologias baratas que se compram por “dá cá aquela palha”. Agora que já o conheço, sei-te dizer como ele é: frio, gordo, narigudo, com pernas de elefante. É um gatuno este cansaço, que me rouba o tempo e, ao contrário do que os homens dizem, eu (que gostava de ser um pássaro azul e que ainda vou sê-lo numa outra vida), eu digo que tempo é amor e não que é dinheiro.
E o hoje, este cansaço trouxe-me para a sobremesa uma grande (íssima) dor de cabeça que não me soube nem a mousse de chocolate caseira nem a cheesecake de limão; e para ser sincera acho mesmo que não me soube nem a ar, nem a vento, nem a nada.
E amanhã, meu caro cansaço, amanhã serei eu a cuidar de ti e não o inverso. Amanhã sou eu quem te dá a sobremesa.  


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

a chuva é um pingue pingue.

Fosse o amor uma pedra no meu sapato e eu não seria chuva nesta noite. E que chuva miudinha a bater à minha janela como se quisesse entrar, fazer-se de convidada para me fazer companhia no meu quentinho. Não cheirava a terra molhada, logo não a deixei entrar.
Do outro lado da vidraça, ela falava comigo, mas eu nem sabia o que dizia, ou por não ouvir ou por fingir que não ouvia. Cerrei-me com as minhas duas mãos e preferi dar ouvidos a outras conversas, aos meus lençóis, ao meu escuro.
Fosse o amor duas pedras no meu sapato e eu seria um aperto lá fora. Em vez disso, o amor é meia pedra e um quarto de casa onde não me sinto quente, onde não digo o que sinto e onde só penso o que deveria dizer se tudo fosse mais quente. O amor é também dois nós e meio que dividem a minha barriga em seis janelas e uma porta e também um portão nas laterais.
E sim, é isto que a escola da chuva me ensina em noites em que não a quero ouvir. De certo que aprenderia bem mais se a fizesse cair sobre mim. E um dia eu aprendo o abecedário da chuva. Queres aprender comigo?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Insónia. Eras a razão da minha insónia, das minhas borboletas voadoras no estômago, (e que doidas borboletas). Que febril esta minha insónia e que tanto de palavras me trazia, como se caíssem sobre mim, pesadas, sobre a minha cabeça, todas de uma vez. E toda esta insónia porque um dia provei do teu sabor. Sabias a menta fresca. E um dia, em vários dias, o meu ouvido escutava, encostado à tua camisola, o que a tua pele lhe tira para contar: dizia tudo menos que eras um corpo ambulante tal como aparentavas ser; estavas vivo e bem vivo. Sublinhava o teu coração num trago de frequências cardíacas mais elevadas.
Engraçado que nunca senti que a minha pulsação de passarinho fora alvo das tuas deturpações. Mas nesta minha insónia eu devia estar perto de poder afirmar que tinha um coração na boca e que o meu lado esquerdo, ao contrário do que é comum em pessoas normais, deixou de ser morada de tanta vida. Que medo de mim e que medo de nós me trazia aquela minha insónia numa noite que nem sei se era de lua cheia. E que bicho papão era este meu medo; sem nome e sem genoma que lhe pudesse dar traços fenotípicos de vírus, de desgraça, ou de qualquer outra coisa. Só te digo que era um medo feio, um medo gordo, obeso. Neste medo, confia, eu não encontrava os nossos Um dia: um dia vou-te amar para sempre; um dia vou correr contigo à chuva, um dia vou ter todo o tempo do mundo para ti, um dia não vais deixar de ter um coração que salta quando estou perto, um dia vou ser velhinha contigo. Um dia.
Fechei a porta na cara do medo. Adormeci suja, cheia do medo, o mesmo feio, o mesmo gordo e obeso. Ele foi-se embora, mas um dia, ah, ele um dia ele volta.

sábado, 17 de dezembro de 2011


Volto a perguntar à tuas mãos grandes com dedos finos e compridos onde está a linha que separa o amor de qualquer outra sensação. Às vezes, imagino-a a tracejado nas ruas da tua cidade que não é a minha. Imagino-a também rasurada, cheia de rabiscos por cima desenhados a carvão por alguéns cheios desta mesma minha dúvida.
E tu, como a imaginas?

terça-feira, 29 de novembro de 2011


Cheirava a Natal na rua da consoada. Vieste até mim como de costume, com a tua cara de neve e de quarto minguante; mas desta vez vieste com menos amor; afinal de contas deixaste de me amar. Porém continuas a ter medo dos meus olhos e daquilo que eles têm para te dizer; continuas a ficar em silêncio por nem saberes o que vais dizer, por falta de palavras ou porque as tens a mais. Não percebo nem nunca percebi (e também não é agora que vou perceber) como consegues tu guardar tanto bicho em ti, tantas borboletas. Mas também não te peço que as soltes agora; afinal o Natal não tem um clima propriamente aconchegador para essa espécie (que para mim, e só para mim, está em vias de extinção).
Continuava a cheirar a Natal na rua da consoada. Eu tinha um presente para ti, como de costume. Mas desta vez resolvi não to dar, mas também não fiquei com ele. Aproveitei e pedi ao vento gelado da noite que me acalentava na rua, enquanto esperava por ti, que levasse o teu presente; ele assim o fez: levou o presente. Para onde? Eu sei lá; quem sabe o presente não esteja agora já no futuro ou no passado.
Ainda continuava a cheirar a Natal na rua da consoada. Porém, quando chegaste, o vento, o mesmo que antes me fazia companhia e me resfriava as mãos roxas e imóveis, levou consigo não só o presente como também o cheiro, o frio. Eu estava sentada e esperava que não me trouxesses então o calor para que tudo ficasse naquele estado indefinido: sem calor e sem frio. Sem nada. Só Natal. Só noite.


sábado, 12 de novembro de 2011

Um carta para o teu céu.

Não, eu não pedi para crescer. Do mesmo modo que não pedi para nascer e ver pássaros a voarem. Pedi asas mas tu não mas deste. Em vez disso, concedeste-me duas pernas e dois braços. Carregados que estão, têm saudades de pisar o teu chão e de te abraçar.
Olha para mim, aqui no menos um, uns quantos andares abaixo, a querer amar-te. Eu já perdi o sabor do teu sorriso. Desculpa as infinitas vezes que não consigo dar-me. A verdade é que é em ti que descubro o melhor de ti mas o pior de mim. E isso tira-me dias de vida, se não são poucos os que já tive. Lembro-me de poucas coisas (por fraca memória ou por razões que a própria razão desconhece) e isso faz-me pensar que vivi pouco. Ao que me parece, tu ainda viveste menos.
Eu estou cansada - bradaste tu aos céus um dia. Mas eu nunca pude medir ou provar do teu cansaço. Nunca soubes das tuas estórias e isso faz-me lembrar que és nova demais para me puderes ensinar a voar e a andar. Talvez por isso nunca me deste asas.
Não queria deixar de fazer disto uma carta. Mas como as cartas não chegam ao céu, eu fico com ela, na minha caixa de correio.

sábado, 22 de outubro de 2011

É sexta e cheira a pudim, aquele pudim caseiro que tu fazias dantes. Ainda me recordo do cheiro a quentinho a pudim em tardes de sábado, quando ainda podia não sabia muita coisa. Contínuo sem saber; continuo a olhar para uma nuvem sem saber o que é, porque nunca lhe toquei: sei que é uma nuvem mas nem sei se é real. Apenas sei porque outros me dizem.
Na altura em que ainda haviam tardes de sábado com cheirinho a pudim eu nem se quer pensava nas nuvens; gostava de me lembrar em que pensava eu nessa altura. Triste é saber que as coisas em que pensamos se vão dissipando como se estivessem cansadas de nos aturar. Pergunto-me então em que pensas tu neste momento, aí tão na tua casa. Presumo que te estejas a sentir como um pudim sem ovos, ou como um ovo sem casca.
É sexta feira e passear nestas ruelas faz-me pensar que moro aqui há pouco tempo, mas há tempo suficiente para já me sentir na minha casa, ainda que ela não tenha muitas janelas e uma só porta, ainda que ela esteja despida deste outono que tem cara de verão ensolarado. Isto porque hoje é sexta feira e cheira ao teu pudim.


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Não somos mais que um frasco de sonhos. E falo por mim.
E ninguém sabe dos meus sonhos. Ninguém os guarda, mesmo que por muitas vezes já lhos tenha confessado. Juro que cheguei a fazer uma lista, como aquelas listas de compras que se fazem quando nos dirigimos ao supermercado. Queria ter feito check em mais sonhos. Em vez disso, fui rasurando alguns não porque estavam concretizados mas pela sensação de que tinham morrido sentados à espera que lhes desse a atenção, o mimo de que necessitavam. Não és só tu que precisas de mimo: o sonho também é gente.
E já dizia a minha avó que o sonho comanda a vida; os meus não comandaram nada: foi a vida quem os comandou e talvez por isso (ou pela minha pouca habilidade para concretizar sonhos) hoje eu seja este frasco cheio de ideias vãs que muitos não percebem, pesadas como pedras no céu a voarem felizes e contentes. Um dia, quem sabe, elas deixam de ser felizes e contentes e passam a ser contentes e felizes.

Eu não sou mais que um frasco de sonhos. Falo por mim, e por ti?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

os anjos não existem.

O céu não é o limite. E o céu também não é como imaginava.
Hoje morri, o meu maior sonho. Não cumpri a ordem natural das coisas e não foi estruturalmente organizada como de costume; troquei o sentido das coisas: primeiro morrer e depois realizar os restantes sonhos. Morri e nem sei como; era como queria morrer: de facto, sempre pensei em modos de morrer mas nunca descobri um realizável.
E hoje morri: não muitas vezes. Uma bastou para perceber que o céu não é como imaginava: um sitio de tons verdes cheio do azul de céu, em silêncio, e com flores, com muitas flores. Que bonito! – pensava que; e Que fatela! – pensas tu. O céu é um buraco onde cais e onde estás melhor porque não tens terra e não podes pisar. O meu céu não tem limite. E o meu céu pode não ser o teu céu. O meu céu é sozinho comigo e caminhamos sem chão os dois: eu desço (com a minha sombrinha sobre a cabeça que me protege da chuva que também não há no meu céu) e ele sobe, portanto, não caminhamos lado a lado. Ambos flutuamos, eu graças à sombrinha, ele graças a algo que ainda estou por descobrir. E não estou descalça com roupa branca: estou escarlate. Agora pensas que morri de sangue: não. A minha morte foi lívida. Não voei como um balão enquanto morria nem vi uma luz branca lá ao fundo. Em vez disso, fechei os olhos e quando se fecha os olhos não se vê nada a não ser aquilo que sempre julguei serem átomos, pontinhos estranhos que colidem entre si como se não tivessem olhos para evitarem o choque. E o meu céu não é muito mais que isto. Ou se calhar é, mas isso é outra história. De uma coisa tenho a certeza, do meu céu posso ver a tua terra.

E o teu céu, como é?